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Cotidiano

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Publicado em quinta-feira, 12 de janeiro de 2017 às 07:00 Histórico

Carlinhos vai à pescaria

 Carlos Roberto não entende muito bem a lógica adulta que espalha ao seu redor figuras de alegres bichinhos como forma de carregar de emoção e fantasia a sua vida que ora se inaugura. Começa, inclusive, a suspeitar de que o convívio diário com porquinhos, vaquinhas, galinhas e peixinhos, não passa de pura balela, embora perceba também a importância dos felizes personagens que tornam mais alegres os seus dias, além de fazê-lo viajar na imaginação de menino que ainda sonha e desconhece a dureza deste mundo.

E Carlinhos é feliz assim, convivendo todos os dias com os seus amigos bichos que vê principalmente na TV, aliás, o seu habitat preferido. Talvez, porque seja aquele o lugar onde eles têm voz, expressão, movimento e personalidade como a dele. E eles ainda aprontam suas peripécias para diverti-lo e fazê-lo ganhar afinidade que é coisa que ele ainda não sabe que existe.

Mas agora, no auge de seus cinco anos, Carlinhos já começa a desconfiar da realidade cor de rosa que até então lhe fora pintada. Se bem que ele é muito jovem para saber da complicação que o ser humano inventou como forma de viver aqui neste mundo. Na sua cabecinha ainda permeiam aquelas figuras que o acompanharão para sempre, mesmo que, daqui em diante, passe a olhá-los com um foco qualquer coisa diferente do que de costume.

Há tempos, inclusive, que esse novo olhar já vem conquistando espaço em seu cotidiano, sobretudo, quando papai achou que seria legal levá-lo à casa de frango onde o garoto, estarrecido, esteve frente a frente com aves mortas por toda a vitrine. As cabeças, mórbidas figuras de olhos fechados e cristas tombadas, lembravam as galinhas bonitinhas com as quais se identificara tantas vezes vendo TV. Estavam, as pobres, despedaçadas e começavam a despedaçar também o seu coração que não entendia o porquê de se apanhar aquele bichinho simpático da televisão, matá-lo e vendê-lo aos pedaços. Então, é isso que vamos jantar? Mamãe se empenhará na cozinha para transformar em comida restos de uma figura tão querida, só para depois oferecê-la a mim?

Todavia, Carlos Roberto é menino de mente astuta, aguçada mesmo e não deixa por menos: enche o adulto de perguntas quando não compreende o incomum, o inusitado. E o churrasco do fim de semana também deu o que falar quando Carlinhos estacou diante de uma mesa onde havia uma travessa contendo algo um tanto sinistro que lhe chamou a atenção. Ossos com carne foi o que viu. Um vermelho intenso, inclusive, também despertou a sua curiosidade e fez com que perguntasse a respeito daquilo à pessoa adulta que o acompanhava. Esta, numa saia justa dos diabos, enrolou o menino e acabou por não revelar a ele que se tratava de sangue. Mas Carlos Roberto insistiu em indagar sobre a procedência daquela peça de carne com ossos. E a pessoa adulta, numa tentativa desesperada de explicar o inexplicável, tropeçou nas barbas e revelou ao menino que se tratava de um porquinho, tendo o cuidado de colocar no diminutivo o nome do bicho, claro.

Pronto. Foi o que bastou para que o garoto procurasse o aconchego do colo materno como forma de refúgio. Sabia que ali estaria a salvo das atrocidades do mundo.

Mais tarde, contudo, animou-se com a ideia de ir pescar com papai e vovô. E enquanto a brincadeira não ia além de alguns banhos na isca, tudo assumiu ar de novidade e graça. Depois, veio o tédio. Tédio repentinamente quebrado no momento em que o pai fisga um peixe. Nova onda de consternação encheu a vida de Carlinhos que vê seu amigo peixinho se debatendo, preso pela boca com aquele gancho pontudo. Aparentava sofrimento, coitado. Depois, outros foram pescados e todos colocados numa vasilha. Mais tarde, diziam os comentários, seriam cortados, temperados e fritos para o jantar da família.

Novamente Carlinhos se aflige e busca refúgio no colo da mãe, na expectativa de não mais ser convidado para passeios ou celebrações. Pelo menos por enquanto.



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