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Cotidiano

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Publicado em quinta-feira, 19 de janeiro de 2017 às 07:00 Histórico

Velho amigo

 Meu velho amigo se foi. Era jovem ainda e a notícia caiu-me com estrondo na cabeça. Estranha sensação de choque na madrugada, que me invadiu o peito e me deixou aquele gosto amargo de impotência diante do improvável, diante da fragilidade do fio que nos dá sustentação neste plano tão conturbado.

Mas conversamos ainda há pouco, no Natal! – a inútil contestação de sempre a desafiar-me os nervos. E, em seguida, a recordação das palavras de minha mãe que sempre dizia que para morrer basta estar vivo. Apesar de que ela, se ainda estivesse conosco, por certo que haveria de lamentar o fato, uma vez que gostava muito do meu amigo e sempre o recebia com muito carinho. Moço educado este. – dizia ela.

Lembro-me, repentinamente, de quando começou a amizade que eu não sabia, duraria muito. Foi lá pelos tempos de sexta série. Depois se estendeu ginásio afora até alcançar o colegial. Aí o Wagnão, como já era chamado pelos amigos mais chegados, foi para o ensino particular, situação que, ao contrário do que era de se esperar, não nos separou.

E como era bom estar em sua casa onde havia uma confortável sala de som, templo do barulho em que ouvíamos nossos rocks em volume sempre adequado ao estilo e à nossa idade. Meu amigo, aliás, amava o gênero e não abria mão de ouvi-lo sempre. Criticava-me, por vezes, por causa do meu gosto pela MPB e pelo erudito. Aí, eu lançava mão de argumentos para minha defesa, embora soubesse que tudo acabaria mesmo em mais rock and roll.

Passávamos também tardes inteiras jogando tênis de mesa na sua garagem. Eu, ele, meu primo e um terceiro que também dividia conosco esses momentos inesquecíveis.

E tudo isso vagava pela minha mente incrédula e aborrecida daquela manhã em que a vida repentinamente perdeu suas cores. É... Tornou-se desbotada, sem brilho.

Recordei-me dos tempos do tiro de guerra e de passeios de carro que deixavam os corações muito jovens mais velozes ainda, deslizando a toda pelo asfalto da vida. Eram sentimentos em ebulição em busca de emoções e do sexo oposto, assunto predileto nas rodas de amigos. E foi, diga-se de passagem, esse ímpeto que nos levou a buscar outros caminhos, cada qual com seu par, o que acabou por nos distanciar até perdermos de vista um ao outro.

E alguns anos se passaram até que o encontrasse na estação de Santo André, onde me contou feliz sobre o nascimento de sua filha Larissa. Bate-papo ligeiro interrompido, mais uma vez, pelas circunstâncias da vida.

Essa mesma filha contava, então, com vinte e cinco anos quando ele me abordou num supermercado, perguntando se eu não era o bom e, agora, velho Rodolfo. Quando me virei mal pude acreditar. Era o Wagnão, ali, bem diante de mim! Conversamos muito. Levou-me, inclusive, ao estacionamento para que eu visse o velho Chevette que ainda possuía, xodó de uma vida inteira. Aquele mesmo carro pelo qual eu despejei litros de baba um dia, ele ainda conservava.

Mas todas essas recordações voltavam a dar lugar à lembrança malévola de sua partida. Dizem que cada um tem seu tempo e que devemos aceitar isso. Mas como foi difícil encarar, naquele princípio de manhã, aquela mensagem que vinha junto de sua foto com a guitarra. Outra pessoa anunciava que meu velho amigo se fora bestamente, notícia que me tirou o chão.

Algo que me fez parar e olhar estupefato para o nada como se buscasse ali uma resposta para o insólito. As paredes do quarto me negaram isso e eu procurei ler mais algumas dezenas de vezes a mensagem para, quem sabe, num dado momento, vê-la diferente, invertida, ou ainda ler uma outra que desmentisse aquela brutalidade que fez calar até mesmo o mar, cuja voz acalentava a minha manhã.

Agora, no momento em que deito a pena neste papel digital, outra questão surge impertinente para desafiar-me o bom senso: o porquê desta homenagem póstuma. Por que não escrevera antes este texto? Certamente criaria uma crônica bem mais alegre e debochada. Nosso estilo.



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