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Cotidiano

Publicado em quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017 às 07:00 Histórico

Míssil e outras palavras

 Estou certo de que o amigo leitor há de ter lá suas preferências no que diz respeito a tudo que, de alguma forma, lhe causa prazer nesta vida. Trata-se, afinal, de um sem-fim de itens que vão desde a marca de um creme dental até o tipo de carro que tem ou, pelo menos, aspira ter um dia. Há preferências na cozinha, no tipo humano, nas roupas, nas artes... E, com a palavra, embora pareça estranho, não é diferente. São capazes de também conquistar o gosto deste ou daquele. O nosso idioma, todos bem sabem, é um dos mais ricos do mundo em recursos linguísticos e tem muito a oferecer nesta questão. Logicamente que em qualquer outro país, as pessoas, sem que se note, costumam apreciar o efeito sonoro que algumas palavras lhes produzem no ouvido.

Certa vez, inclusive, ouvi falar de um sujeito que também adorava a maneira como certos termos lhe soavam. Um em especial deixou boquiabertos os interlocutores a quem era dirigido o comentário. Houve até quem torcesse o nariz para a revelação um tanto inusitada daquele que falou, destituído de uma migalha sequer de pudor, que apreciava sobremaneira a palavra ‘cadáver’. Segundo ele, a mais bonita do idioma português. Isso mesmo, ‘cadáver’! É preciso admitir, contudo, que soa mesmo imponente, até elegante, pois destoa do seu real significado o termo apreciado pela tal figura.

Em outro momento, soube de alguém que destacava “saudade” como a palavra mais bela. Um tanto poético, admito.

Eu, por mim, aprecio a palavra ‘míssil’ como se esta servisse para designar objeto projetado e construído para entregar flores.

E o idioma inglês, assim como qualquer outro, também tem lá suas contradições verbais, pelo menos deste nosso ponto de vista. Exemplo disso é spider, nome garboso, que é usado para designar aranha. Convenhamos, amigo, que ‘aranha’ cai muito melhor com a aparência do bicho do que seu nome em inglês. Eles que me perdoem.

Míssil, porque lembra petulância, aquilo que se impõe, talvez tenha conquistado a minha simpatia, o que, às vezes, me causa algum desconforto, tendo em vista que não possui, o objeto, outra finalidade senão promover a morte por atacado.

É claro que outras pessoas, mundo afora, dividem comigo este apreço por ela. Em especial, aquela gente de uma longínqua região, que chega mesmo a dedicar verdadeira veneração pelo artefato, mesmo tendo outro nome. O ditador desta terra, por exemplo, ama disparar esses foguetes só para vê-los explodir e perturbar a calma do resto da população do mundo. Parece-me, inclusive, que dia destes lançou um dos grandes só para chatear o povo do Ocidente que se viu ultrajado pelos olhinhos sagazes, mais petulantes que o próprio míssil. Aliás, se antes gostava desses brinquedos, agora que pode usá-los para tocar o topete do grande urso branco, anda transbordando alegria e não poupará esforços nem dinheiro para a empreitada.

Nem imagino, aliás, o nome dado por aquele povo para designar a coisa venerada.

De qualquer maneira, chego mesmo a considerar que seria melhor apreciar palavras de idioma estranho que normalmente nos escondem seu significado. Da mesma forma que há vocábulos de nossa língua que facilmente cairiam nas graças do estrangeiro que não as entendesse. ‘Maracutaia’, por exemplo, soa engraçada, carregada do senso de humor conferido ao brasileiro. ‘Propina’ tem um aspecto técnico, como remédio talvez. ‘Corrupto’ é possível que embaralhasse a língua pouco habituada à sua estrutura e, sobretudo, ao seu significado.

Por certo que haverá gringo também manifestando encantamento pelo termo ‘desonestidade’, que tem a mesma melodia de ‘felicidade’. Felicidade, tão peculiar a este povo, o mesmo que não dá lá muita bola para o vocábulo ‘desesperança’. Acho que por causa do costume.

 



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