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A bike & ela

Arquivo Pessoal/JulianaHirata Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Marcela Munhoz

16/03/2017 | 07:00


Sabe aquele sonho que parece impossível e, muitas vezes, não sai da gaveta dos desejos até a próxima encarnação? Tem gente que não espera tanto assim. Após se separar, em 2015, Juliana Hirata, 37 anos, resolveu responder, na prática, a uma pergunta que sempre a instigou: ‘O que é que quero saber de verdade?’.

“Vendi tudo o que podia, quitei dividas, desfiz contratos, fechei conta no banco, cancelei plano de telefone, juntei o dinheiro que tinha e, com a ajuda de algumas pessoas, consegui reunir o suficiente (média de US$ 10 por dia). Fui ficando cada vez mais leve e livre. Era hora de ter a coragem de fazer o que sempre quis, viajar em busca da tal resposta”, conta a são-bernardense. “A separação foi a chance para que pudesse, novamente, ter a vida que havia abandonado há anos. A vida de descoberta, aventura, de coragem, liberdade e totalmente fora da minha zona de conforto.”

Durante nove meses, a bióloga planejou a aventura Extremos das Américas. No roteiro, 50 unidades de conservação em 14 países, totalizando 28.560 quilômetros em dois anos na estrada – partindo de Prudhoe Bay (Alaska) até a Tierra del Fuego (Argentina). A viagem começou em abril de 2016 e deve terminar em abril de 2018. Agora, ela está bem no meio do caminho, no México. “Planejamento é só para dar um norte, de onde obtenho referências, mas boa parte da viagem acontece na prática. Estar na estrada exige adaptações constantes. O novo e inesperado são parte do trajeto, e eu adoro isso.”

E se a aventura já parecia boa só pela ideia de percorrer lugares inacreditáveis e com a natureza tão presente – por ser bióloga, ela procura entender “por que algumas sociedades amam proteger ambientes naturais e outras sociedades possuem uma relação de conflito com essas áreas”–, dois detalhes deixam a trajetória de Juliana ainda mais marcante: ela está de bicicleta e sozinha.

“Saber que não havia muitas mulheres sozinhas de bicicleta foi outra grande questão. Aparentemente as Américas são destinos mais inóspitos para a presença feminina. No momento, sei de oito – comigo nove – por aqui de bicicleta. Todas são inspirações. Me juntei a elas pelo direito de viajarmos na nossa própria companhia. Viajar sozinha é ainda um ato de resistência”, acredita.

Medo, autoconhecimento e encantamento são companheiros
“Esta tem sido a experiência de autoconhecimento mais importante da minha vida”, conta Juliana Hirata, que sempre andou de bicicleta. “Ver a relação tempo/espaço se concretizar nos quilômetros percorridos é outra sensação boa de viajar de bike. Cada centímetro de estrada percorrido foi feito com minhas próprias pernas, esforço e em batalhas mentais, às vezes complexas, outras, simples. Os desafios, que antes eram grandes, vão ficando menores com o tempo e minha relação com meu corpo hoje é de carinho e amor.”

Segundo a são-bernardense, ela não sabe como estará quando a aventura terminar – “Penso no que passou, planejo o futuro, mas vivo o presente” – porém cada segundo até agora já valeu a pena. Ela destaca alguns episódios marcantes, como o impressionante frio do Alasca (chegou a pegar -24°C dentro da barraca), ver a Aurora Boreal no Ártico, o primeiro contato com ursos, a tempestade de raios no meio na floresta canadense, as noites estrelados nos desertos de Utah e Califórnia, as baleias cinzentas na península de Baixa Califórnia e as mariposas Monarcas em Michoacan, no México”.

E a pergunta inevitável depois de tudo isso: já sentiu medo? “Meus medos estão sempre por perto e assim os quero. No início, sentia todos os dias, cada dia um diferente. Os medos que tenho experimentado sobre a bike e em lugares mais selvagens são do tipo bom, que me faz sentir mais forte. O medo como mulher já sentia nas cidades. É o medo de outros seres humanos. Nas cidades e em lugares habitados estou mais vulnerável.”

 

Saiba mais:

Você sempre sonhou fazer isso?

Nunca me imaginei em uma viagem tão longa de bicicleta, mas viajar e conhecer pessoas e paisagens sempre foi uma paixão. Adoro poder viver um determinado lugar como se fizesse parte dali.

Por que de bicicleta?

Hoje a bicicleta é meu meio de transporte, meu estilo de vida e minha casa. É com a bike que mergulho em culturas e conheço pessoas incríveis. Mas, mesmo antes de ser uma cicloviajante, já era usuária da bicicleta na cidade. É meu principal meio de transporte para o trabalho e lazer. Faço tudo de bike, inclusive ir à festas e baladas.

Por que sozinha?

Estar viajando, especialmente em áreas naturais e mais isoladas, é saber que, diante de situações com a natureza, terei os resultados das minhas próprias escolhas e isso é incrivelmente libertador.

O que sua família achou?

Sou a primeira filha e única mulher. Esse contexto explica um tanto da reação, principalmente do meu pai e irmão mais velho, a minha viagem. Eles foram os primeiros a saber e, juntos, tivemos muitas horas de conversa, explicações, esclarecimentos, conselhos, choros e brigas. Hoje são os meus maiores incentivadores, mas no início foi bem conflituoso.

Quanto planejou gastar? Como vai a administração?

Planejei gastar US$10 por dia. O planejamento em dólar me permite ter mais controle em relação às variações cambiais. Devo passar por países com diferentes moedas e condições econômicas. O Alasca e Canadá foram os mais complicados em relação a dinheiro, tudo lá é muito caro principalmente comida, minha principal fonte de gastos. Minha média nesses dois países foi de US$13, o que vai me forçar a pedir ajuda financeira nas redes sociais em breve. Agora, aqui no México (entrei em dezembro de 2016) estou regularizando a situação, gastando menos, mas ainda não vou conseguir colocar a média da viagem.

Escolheu reservas naturais por ser bióloga? Como está sendo a experiência de contato com a natureza?

Sim, uma das razões dessa viagem está conectada à minha paixão por unidades de conservação e preservação da biodiversidade. Estar nos parques com a bicicleta, conversar com administradores e técnicos, entrevistar turistas e outros visitantes tem sido muito importante para que eu entenda as diferenças e semelhanças nos diversos contextos sociais e políticos. O contato com a natureza é pra mim, como bióloga e pessoa, por si só, muito prazeroso. Vi muitos animais até aqui, de grandes mamíferos (terrestres e aquáticos) a árvores milenares. Passei também, muitas noites acampada nessas áreas, o que na minha opinião, é a forma mais intensa de experimentar essas áreas. Acordar com a sombra de dois alces na parede da barraca é algo bem intenso.

Algum episódio mais marcante?

Alguns. O frio do Alasca foi impressionante. Minha segunda noite no Ártico fez -24°C dentro da barraca e eu precisei me concentrar para não perder o controle. Também lá, vivi noites incríveis de completo isolamento e silêncio com somente a natureza ao meu redor. Ver a Aurora Boreal no Ártico foi uma das visões mais míticas que já tive na minha vida. Simplesmente não acreditava que aquilo era real. Meu primeiro contato com ursos foi intenso. Fiquei 18 horas sem comer temendo atrair os animais com o cheiro. Imagina chegar em um café de beira de estrada depois de 18 horas sem comer? Foi melhor hambúrguer da minha vida.

Já no Canadá, tive contato com uma tempestade de raios durante algumas horas, no meio da floresta. Os raios atingiam as árvores e eu, dentro da barraca, em posição fetal, só torcia para que nenhum pinheiro gigantesco caísse sobre a minha cabeça. As noites nos desertos de Utah e Califórnia foram as de céu estrelado mais lindas de toda minha vida. Fiquei maravilhada. As baleias cinzentas na península de Baixa Califórnia, já no México, e as mariposas Monarcas em Michoacan ... ai, tão difícil escolher poucas situações!

Conte onde sentiu mais medo.

Foi na Estrada 16, da Colúmbia britânica, no Canadá. O lugar é chamado de Highway of Tears (Estrada das Lágrimas) porque diversas mulheres e meninas desaparecem ali desde a década de 1940. Um homem em uma pick-up vermelha passou por mim várias vezes durante o dia e quando parei para descansar, em uma área com banheiros públicos, à beira de um rio, ele me abordou de maneira bem assustadora. Sempre escondo minha barraca e bicicleta para dormir, mas essa noite não consegui descansar. Cada ruído na floresta, onde estava escondida, me fazia pensar que ali, talvez, não estivesse suficientemente escondida e aquele homem poderia me encontrar. Foi uma noite de verdadeiro terror.

Preconceito?

Sempre ouço a pergunta: "Mas você está sozinha?" e normalmente a conversa que segue a partir dessa pergunta sugere que só não estaria sozinha se estivesse acompanhada por um homem. Isso é muito comum e bastante machista. Vale lembrar como a mídia em geral tratou o caso das mochileiras mortas no Equador em março 2016. É um ótimo exemplo. A própria secretária de turismo do país, María Cristina Rivadeneira, afirmou que os assassinatos "iriam ocorrer cedo ou tarde", pois as mulheres estavam viajavam de carona, sozinhas (elas estavam em duas) e "procuravam festa".

Saudade?

As mídias sociais são incríveis e têm ajudado muito nesse quesito. Meus pais vieram me visitar no Sul dos Estados Unidos e meu pai veio mais uma vez me ver em Guadalajara. Ter esses momentos com eles recarregaram minhas energias.

Vontade de desistir?

Vira e mexe, quando estou exausta, em meio a um trecho mais complicado, penso em desistir. Diante dessas situações, aprendi comigo mesma que quando estou assim, devo aprender a descansar e não a pensar mais.

Como vc faz a manutenção da bicicleta?

A bicicleta é uma máquina incrivelmente simples, porém a mantenho sempre limpa e lubrificada para evitar maiores problemas. Estou sempre atenta a barulhos e ruídos diferentes e dou atenção a estas coisas antes que se tornem problemas mais graves. Até o momento o pior que aconteceu foram três raios da roda traseira que quebraram. Improvisei na beira da estrada até chegar em uma cidade é consertar em uma oficina.

Onde dorme?

Durmo 70% em beira de estrada, quintal de pessoas, casas abandonadas, no meio da floresta, atras de montanhas. Quando assim, tento esconder minha barraca e bike ao maximo. Os outros 30% é em casa de pessoas e hoteis e hostels. Existe uma comunidade de pessoas que hospedam cicloturistas gratuitamente chamada Warmshowers (warmshower.com) e em algumas cidades as Casas de Ciclistas, dormir na natureza é bom mas de vez em quando um banho e uma cama fazem um diferença enorme no meu corpo.

Fez algum curso de preparação para tudo isso?

Sempre pensei em como divulgar essa viagem e por isso fiz um curso sobre documentário em São Paulo. Lá encontrei parceiros incríveis que hoje me ajudam a subir a webserie "Extremos das Américas" no canal Juli Hirata do YouTube. O objetivo é estimular mais mulheres a viajar sozinhas, promover o turismo e a curiosidade em áreas naturais e as Américas como um só continente.

Como vc acha que estará quando a aventura terminar?

Parte da minha experiência tem sido significativa, pois estou muito focada no presente. Quando estou em um lugar tento viver aquele momento com todos meus sentidos. Quando estou com uma pessoa tento estar 100% presente ali. É difícil, mas tenho conseguido com cada vez mais frequência. Penso no que passou, planejo o futuro, mas vivo o presente. Não sei como estarei quando eu chegar lá na Terra do Fogo, no extremo sul da Argentina, mas já sou grata por todo o processo.

Tem mais alguma coisa que queira dizer aos leitores do caderno?

Sim. Primeiro é, sempre que você puder, viaje! Principalmente na América Latina. É lindo ver as paisagens, as pessoas são maravilhosas e nossa riqueza cultural é incrível. Segundo, visitem e valorizem os parques e unidades de conservação. Hoje é fundamental que compreendamos e apoiemos a existência dessas áreas e das pessoas que vivem nelas e ao redor delas.

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